À terceira foi mesmo de vez e, finalmente, concretizámos o plano de visitar Budapeste.

Esta era uma viagem que já andava nos planos há vários anos, mas surgia sempre alguma coisa que nos fazia adiar. A primeira vez foi a pandemia. Depois vieram outros imprevistos e, desta vez, já dizíamos que, se não fosse desta, provavelmente não voltaríamos a tentar. Será que não?

Mas aconteceu. E ainda bem.

Gostei muito de Budapeste. Foi uma daquelas cidades que me surpreendeu mais do que estava à espera. Não sei bem explicar porquê, mas senti-me bem desde o primeiro dia.

A viagem começou com um pequeno contratempo: o avião saiu atrasado. Nada de grave, mas foi também a primeira vez que viajei de avião com a minha Triride e confesso que estava um pouco receosa que alguma coisa corresse mal.

Felizmente, a assistência no aeroporto foi impecável e não houve nada a apontar.

A meio da viagem olhei pela janela e deparei-me com um cenário lindíssimo. As montanhas, com os cumes cobertos de neve, confundiam-se com as nuvens.

Chegámos já tarde e, por isso, tínhamos reservado hotel junto ao aeroporto. Não fazia sentido ir para o centro àquela hora e, além disso, assim conseguíamos uma opção mais barata.

Antes de subir ao quarto confirmei novamente se era adaptado, tal como tinha solicitado na reserva. Responderam que sim. Quando entrei, percebi imediatamente que não era.

Mais do mesmo!

Felizmente resolveram a situação rapidamente e trocaram-nos para o hotel ao lado. Nem foi preciso sair para a rua, porque a receção era partilhada no mesmo piso. Acabámos por ficar num hotel de quatro estrelas do mesmo grupo.

No dia seguinte seguimos para o centro da cidade. Apanhámos o autocarro E100 e saímos em Deák Ferenc tér, muito perto do hotel.

Qual a probabilidade de espetar um parafuso na roda antes de chegar ao hotel?

Pelos vistos, 100%.

Tinha acabado de sair do autocarro, andado apenas alguns metros e estava quase a chegar quando ouvi um barulho estranho. Olhei para baixo e vi um parafuso espetado no pneu.

Nos primeiros segundos fiquei em choque. Depois foi altura de resolver o problema.

Na receção do hotel fomos recebidos por uma portuguesa muito simpática que tentou ajudar, mas sem grande sucesso. Ainda tentámos algumas lojas de bicicletas, mas estavam todas ocupadas e, além disso, seria difícil encontrar um pneu igual.

A solução acabou por ser bastante simples. O Fernando foi a uma Decathlon, comprou uma espuma anti-furo e encheu o pneu.

Funcionou na perfeição.

O pneu aguentou toda a viagem e fizemos bastantes quilómetros por dia, como é habitual.

Curiosamente, esta foi apenas a segunda vez que me aconteceu algo semelhante em viagem. A primeira foi há mais de vinte anos e resolvi exatamente da mesma forma.

Por isso fica a dica: se vão para destinos onde pode ser difícil encontrar assistência ou material compatível, levem uma espuma anti-furo convosco. Pode mesmo salvar a viagem.

Buda ou Peste?

Os dois.

Separadas pelo rio Danúbio, Buda e Peste são muito diferentes entre si e vale a pena dedicar tempo às duas margens da cidade.

Ficámos alojados em Peste, a zona mais central, mais movimentada e também onde é mais fácil encontrar alojamento a preços acessíveis.

Buda

O centro histórico é muito bonito, está bem recuperado e é bom ir sem pressa. Algumas zonas têm piso irregular, sobretudo na área do Castelo, por isso quem utiliza cadeira de rodas é melhor fazê-lo com uma roda auxiliar ou outro equipamento que facilite a circulação.

Para ir até lá atravessámos a Ponte das Correntes, a mais antiga e talvez a mais emblemática de Budapeste.

Para subir à colina do Castelo utilizámos o funicular Budavári Sikló, que é acessível a cadeira de rodas. Existem outras alternativas, incluindo autocarros públicos, mas escolhemos esta opção porque nos pareceu uma experiência diferente. É mais cara, mas mais direta e também tem o seu encanto.

Lá em cima está o Castelo e vários edifícios imponentes que ajudam a perceber a importância histórica desta zona da cidade. Alguns estão ainda em recuperação.

O Bastião dos Pescadores, Halászbástya, dá-nos uma vista fantástica sobre o Danúbio e sobre Peste. É provavelmente um dos melhores locais para ver o Parlamento de Budapeste à distância.

Para aí chegar há que passar pela Igreja de Matias, Mátyás-templom, lindíssima e impossível de ignorar.

São muitas as atrações e vale a pena reservar algum tempo para explorar esta zona da cidade.

Peste

Claro que não se pode visitar Budapeste sem passar pelo Parlamento, um dos maiores e mais bonitos da Europa.

Mesmo ao lado é impossível ignorar o Memorial dos Sapatos (Cipők a Duna-parton), um local muito marcante de homenagem às vítimas assassinadas nas margens do Danúbio durante a Segunda Guerra Mundial. 

Seguindo pela Praça da Liberdade (Szabadság tér), chegamos à Basílica de Santo Estêvão (Szent István), uma visita que recomendo. É uma das basílicas mais bonitas que já visitei e está extraordinariamente bem conservada. Parece quase nova. O acesso para cadeira de rodas faz-se pelas traseiras.

Outra das grandes atrações da cidade é o Bairro Judeu, onde se encontra a Grande Sinagoga de Budapeste, uma das maiores do mundo. 

É também conhecido pela vida noturna da cidade. Aqui encontram-se os famosos ruin bars, que funcionam em antigos edifícios degradados e nos pátios interiores. À primeira vista parece que estamos a entrar num prédio abandonado, mas lá dentro estão espaços cheios de vida, com uma decoração muito original repleta de objetos antigos, mobiliário improvisado e grafites. 

Mesmo que não sejam pessoas de sair à noite, vale a pena entrar num deles nem que seja apenas para conhecer. Acaba por ser uma das experiências características de Budapeste.

Passámos ainda pela Praça dos Heróis (Hősök tere) e seguimos até ao Parque da Cidade (Városliget), um dos maiores espaços verdes de Budapeste. Aqui encontram-se o Castelo Vajdahunyad e o famoso Balneário Széchenyi, as termas mais conhecidas da cidade.

Aproveitámos para almoçar na Casa da Música e descansar um pouco antes de continuar a explorar Budapeste. Ainda tentámos visitar a exposição dedicada a Freddie Mercury, mas infelizmente já estava esgotada para aquele dia.

Toda esta zona tem uma forte componente cultural e merece algumas horas de visita.

Ao longo dos dias percorremos os principais eixos da cidade, caminhámos pelas ruas comerciais mais movimentadas e pelas praças centrais. Fomos também até ao Mercado Central, onde a paprika está por todo o lado. É impossível sair de lá sem perceber que esta é a especiaria mais usada na Hungria. Passámos também pelo Memorial da Revolução Húngara.

Outra imagem que fica de Budapeste são os seus elétricos amarelos, que fazem parte da paisagem da cidade e acompanham muitas das principais avenidas e margens do Danúbio. 

No domingo, aproveitámos para fazer como muitos habitantes de Budapeste e fomos passear até à Ilha Margarida e desfrutar daquele enorme espaço verde no meio do Danúbio.

E já que falo no Danúbio, vale a pena voltar às suas margens ao final do dia. Com o Parlamento, o Castelo de Buda e as pontes iluminadas, a cidade ganha um ambiente completamente diferente. É um daqueles momentos que ficam na memória.

Confesso que encontrei demasiados grupos de despedidas de solteiro e de solteira para o meu gosto, sobretudo ao final do dia e durante a noite. Em algumas zonas isso acaba por alterar um pouco o ambiente da cidade.

Também encontrei muitos restaurantes e cafés modernos, claramente virados para o turismo, que é bastante. Mas, mesmo assim, Budapeste continua a ser uma cidade cheia de história, com muito para descobrir.

Gastronomia

A gastronomia faz sempre parte das viagens, pelo que não podíamos deixar de provar a famosa sopa goulash, um dos pratos mais tradicionais do país. É uma sopa de carne, legumes e temperada com bastante paprika, claro! Confesso que não estava à espera de gostar tanto. Recomendo.

Se gostam de doces, não deixem de passar pela Strudel House. É, talvez, a casa mais indicada para provar os tradicionais strudels, com diferentes recheios, tanto doces como salgados.

Eu optei pelo de papoila, que me disseram ser um dos mais procurados, e o Fernando escolheu o clássico de maçã. Gostou tanto que voltou no dia seguinte para repetir. Eu, confesso, não fiquei completamente rendida a nenhum deles.

O que também não me conquistou foi o kürtőskalács, um dos doces mais famosos da Hungria. Há bancas em praticamente todas as esquinas a vendê-lo, é servido acabado de fazer, ainda quente, com diferentes coberturas e recheios. Achei-o demasiado doce para o meu gosto, mas também reconheço que não sou propriamente uma pessoa de doces. Talvez por isso não tenha ficado tão fã como a maioria das pessoas. Aliás, aconteceu-me exatamente o mesmo com a baklava, na Turquia, um doce que toda a gente parece adorar.

Também tentámos visitar o famoso New York Café, considerado por muitos um dos cafés mais bonitos do mundo. Mas a fama tem o seu preço. As filas eram enormes e acabámos por desistir. Fica para uma próxima visita.

Ainda assim, para quem não se importa de esperar, acredito que a visita valha a pena. O espaço parece ser realmente impressionante e faz parte da história da cidade.

Budapeste e a acessibilidade

Budapeste é uma cidade em mudança. Nota-se que está a modernizar-se e a investir na melhoria dos espaços públicos.

É uma cidade incrível, mas ainda tem um longo caminho a percorrer no que diz respeito à acessibilidade para todos.

Circular pelas ruas não é particularmente difícil, sobretudo na zona central. A maioria dos passeios está rebaixada e o piso é relativamente regular. Percebe-se que existe investimento e que têm sido feitas melhorias. Por outro lado, muitos restaurantes, cafés e lojas continuam a ter degraus à entrada.

Em alguns dos pontos turísticos mais visitados já existe informação sobre acessos, entradas e bilheteiras para pessoas com mobilidade condicionada, o que é sempre positivo.

Houve, inclusivamente, um episódio que achei curioso. Entrei numa loja que tinha um degrau à entrada, com ajuda do Fernando, e, quando chegou a altura de sair, um funcionário foi buscar uma rampa portátil para que eu pudesse sair de forma autónoma, sem precisar que me ajudassem. Foi um gesto simples, mas que demonstra preocupação e que têm soluções.

Apesar das barreiras que ainda existem, senti que Budapeste está a caminhar na direção certa. Não é uma cidade totalmente acessível, mas também não deixou de ser um destino onde consegui visitar praticamente tudo o que tinha planeado.

Onde ficámos – Alojamento

A primeira noite ficámos no TRIBE Budapest Airport, junto ao aeroporto.

O hotel tem boa acessibilidade. O quarto adaptado estava equipado com barras de apoio e banco de banho. O único aspeto menos positivo foi a cama, que era bastante pequena, acho que de tamanho individual.

Como já referi, tivemos ainda de mudar de hotel porque o quarto do primeiro não era adaptado. Como era apenas uma noite e estávamos bastante cansados, acabámos por não dar mais importância ao assunto.

Outro ponto menos positivo foi a alcatifa no quarto. Para quem utiliza cadeira de rodas, a deslocação torna-se mais difícil e exige mais esforço, aliás é um pormenor que me faz não escolher um hotel.

Nos restantes dias ficámos alojados no Eurostars Danube Budapest, uma excelente opção pela localização. Fica muito perto de vários pontos de interesse, e também muito próximo do transporte para o aeroporto, algo que temos sempre em conta por causa da bagagem.

Em termos de acessibilidade, o hotel correspondeu às expectativas. O quarto adaptado tinha uma casa de banho equipada com barras de apoio e banco de banho.

Conclusão

À terceira foi mesmo de vez. E ainda bem que nunca desistimos e que voltámos a marcar esta viagem. Budapeste surpreendeu-me pela beleza, pela história e pela forma como está a evoluir. Ainda há falhas na acessibilidade, mas consegui aproveitar muito a viagem e recomendo, especialmente a quem gosta de conhecer as cidades a pé, sem pressas e com tempo.

JustGo!!

Ano da viagem: 2026

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