Foi já há mais de vinte anos que me foi proposto, na empresa onde trabalhava, ir apresentar um projecto a Bruxelas e isso implicava que teria que viajar sozinha.

Iria com o meu chefe, mas regressaria sozinha. Na altura, fiquei aterrorizada e pensei logo em dizer que não, mas, como gosto sempre de me superar, aceitei. Não ia propriamente sozinha, mas para mim era como se fosse, pois não iria ter o à vontade necessário para lhe pedir auxílio no caso de o quarto do hotel não estar bem adaptado e, ainda, teria de voltar de avião sozinha.

O hotel não estava perfeito, mas desenrasquei-me, e com o avião também correu tudo bem já que, aqui, vá acompanhada ou não são, sempre, os funcionários do aeroporto que me dão suporte. Como fui bem-sucedida, fiquei muito orgulhosa de o ter feito. Foi aqui que percebi que seria possível fazê-lo, sozinha, se precisasse.

Quando ainda jogava ténis, fui várias vezes a Ponta Delgada participar em torneios e, numa dessas viagens, decidi ir sozinha. Tive de levar, além da minha cadeira, a cadeira de desporto, a raqueta e a mala. Esta viagem representou muito para mim, deu-me uma sensação de triunfo e de independência fantástica que se veio a reflectir noutras viagens.

É um facto que, de carro, podia dar a volta ao mundo. Sinto-me como se levasse a minha casa comigo pois, com ele, posso fugir de todas as situações mais complicadas! De comboio, sozinha, apenas fui de Lisboa ao Porto e, na altura, adorei a viagem precisamente por ter ido sozinha!

Não fiz, ainda, uma grande viagem sozinha e, quando o faço, normalmente, vou ao encontro de alguém no destino.

O que representa viajar sozinha

Viajar sozinha para mim é, acima de tudo, uma grande prova de superação. Além do receio de ter alguma barreira física que não consiga ultrapassar, deparo-me, também, com o facto de não gostar muito de fazer coisas sozinha. A superação destas inseguranças reflecte-se no meu dia a dia, trazendo-me confiança para avançar e esperar sempre mais de mim.

Quer seja a viajar, quer seja noutra situação é muito importante podermos contar só connosco. Sentirmo-nos independentes e decidirmos o nosso rumo, traz-nos uma clareza e uma liberdade indispensáveis para nos conhecermos a nós próprios. Sempre que viajo sozinha sinto que me basto a mim própria e que posso confiar na minha capacidade de me desenrascar e não depender de ninguém. É muito libertador e deixa-me, seguramente, mais forte por sentir que ultrapassei mais barreiras, quer interiores quer exteriores.

Desafios de viajar sozinha

Quando viajamos sozinhos temos que lidar com as nossas inseguranças como, por exemplo, o medo de que nos aconteça qualquer coisa e não termos ninguém connosco que nos socorra ou o grande desafio de não termos com quem conversar e partilhar o que estamos a viver, e, finalmente, no meu caso, ter de lidar com as barreiras arquitectónicas que existem por todo o lado.

Ora, andar por qualquer lugar na Europa, ou cidade desenvolvida, é o mesmo que andar na nossa cidade, visto que não é mais nem menos perigoso se tivermos os cuidados que temos habitualmente.

O facto de andarmos sozinhos deixa-nos disponíveis para nos relacionarmos com outras pessoas e é aqui que nos surpreendemos pois, quando damos por nós, estamos a meter conversa com o vizinho da mesa ao lado!

Quanto ao enorme desafio de lidar com barreiras arquitectónicas esse já o tenho todos os dias, a diferença é já as conhecer e já as contornar, inconscientemente, como se não estivessem lá!

Como organizar uma viagem a solo?

Dependendo se somos mais ou menos aventureiros, temos de levar a viagem mais ou menos programada. Isto aplica-se a todas as pessoas. E, eu, confesso, sou uma aventureira muito precavida!

Claro que o facto de se ter mobilidade reduzida faz com que seja melhor e mais seguro levar a viagem organizada. Ter alojamento marcado e com garantia de ter quarto adaptado é, para mim, fundamental. Nem todos os hotéis têm quartos adaptados e nem todas as adaptações são as ideais para as nossas limitações, pelo que o melhor é confirmar tudo com o hotel antes de partir.

Ler artigo: Como organizar uma grande viagem

Se estamos a pensar deslocarmo-nos de avião, comboio ou barco, ao comprar o bilhete, não nos podemos esquecer de avisar que nos deslocamos em cadeira de rodas, pois vamos precisar de ajuda.

Se queremos ir a locais específicos, há que estudar se o percurso até lá é acessível e verificar se existem degraus ou escadas ou se há elevador ou alguma plataforma especifica para entrar. Ou, então, vamos e logo se vê! Existe sempre alguém que se prontifica a ajudar-nos.

Outro ponto fundamental é tentar reduzir ao máximo a bagagem. Quanto menos levarmos mais fácil se torna porque temos de conseguir deslocarmo-nos com toda a bagagem, sem ajuda.

Escolher o destino perfeito para uma viagem a solo

Para mim, desde que esteja muito calor já está perfeito, claro!!

Qualquer destino é perfeito desde que nos ofereça aquilo de que mais gostamos, quer seja cultura, história, praia ou outro. É o que nos apetece no momento e depende do nosso estado de espírito. Já viajei com problemas de saúde e, nesse caso, não me aventurei para destinos pouco desenvolvidos.

Talvez existam destinos mais perigosos em que será melhor não irmos sozinhos, o que se aplica tanto a homens como a mulheres. Se nos sentimos vulneráveis, talvez seja melhor procurar destinos mais seguros, como cidades grandes em que estamos sempre rodeados de pessoas.

É importante escolher um destino onde sabemos que vamos encontrar coisas que gostamos de fazer e de ver e, assim, vamos ter com que nos ocupar para o caso de acharmos que vamos sentir-nos sozinhos.

Claro que um destino perfeito para uma pessoa que se desloque em cadeira de rodas, terá de ser um destino acessível como, por exemplo, Berlim ou Barcelona, duas das cidades mais acessíveis onde já estive e onde me aventurava a ir sozinha.

Ler os artigos sobre Berlim e Barcelona.

Uma mulher a viajar sozinha?

Talvez seja vista como uma mulher corajosa ou aventureira, no entanto, acho que este paradigma está a mudar, uma vez que começa a ser usual uma pessoa, seja mulher ou homem, viajar sozinha. Até há bem pouco tempo não se falava muito de viajantes a solo e, hoje, todos nós conhecemos alguém que já o fez e o feedback é quase sempre positivo.

Dicas para outros viajantes com mobilidade reduzida que querem viajar sozinhos

Se tem a vontade de viajar sozinho mas tem algum receio, sugiro que o faça para um local próximo, talvez começar por uma cidade portuguesa. Se algo correr mal, estará a poucas horas de casa ou de alguém amigo o ir socorrer, o que, de certeza, não vai ser preciso.

Leve o alojamento marcado e confirmado relativamente às suas necessidades. Este, para mim, é o passo principal ao programar uma viagem. Vá como turista e desfrute ao máximo.

Ler artigo Como reservar hotel adaptado.

Começam a surgir muitas empresas de turismo acessível com oferta de programas para pessoas com mobilidade reduzida. Basta pesquisar e encontram-se várias opções que podem ser uma alternativa para quem viaja sozinho.

Existem, também, alguns grupos e blogs de pessoas nas mesmas condições, inspirem-se neles, façam perguntas e tirem todas as dúvidas.

E não ter receio de pedir ajuda pois as outras pessoas estão sempre disponíveis para ajudar…

Se é aventureiro e extrovertido vai estar como peixe na água. Se não é, talvez lhe faça falta um desafio destes, porque terá, com certeza, muito a ganhar.

Cuidado, talvez lhe tome o gosto e nunca mais pare!!

Apesar de já ter feito alguns percursos sozinha, e de ter gostado e tirado muitas coisas positivas dessas experiências, ainda não fiz nenhuma grande viagem sozinha, no entanto, hoje sei que, quando for oportuno ou inevitável, o poderei fazer sem qualquer problema e isso tranquiliza-me.

JustGo!!

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