Viajo em cadeira de rodas há mais de 30 anos e tenho observado a evolução das praias em termos de acessibilidade, principalmente, em Portugal e Espanha.
Lembro-me bem de quando não havia passadeiras, cadeiras anfíbias ou equipas preparadas para dar apoio. Ir à praia era quase sempre um desafio impossível. Durante alguns anos deixei mesmo de o fazer e, para mim, foi um desgosto, porque cresci junto ao mar e sempre passei os verões na praia.
Felizmente, hoje o cenário é bem diferente.
Espanha: sempre um passo à frente
Nos últimos anos tenho explorado muito as praias de Espanha. Já vou para Cádiz há três anos seguidos, estive em Maiorca e este ano conheci a Praia de La Misericordia, em Málaga. E posso dizer que todos os anos encontro melhorias e evolução, sempre com soluções pensadas para quem precisa.
Na praia de La Misericordia, em Málaga, fiquei impressionada:
Percursos assinalados desde o estacionamento até à zona acessível;
Cadeiras e muletas anfíbias, andarilhos adaptados, gruas, espreguiçadeiras;
Zonas de sombra, duches e WC adaptado;
E um sistema de audiopraia, que nunca tinha visto antes.
Este sistema funciona com uma pulseira que orienta pessoas com deficiência visual até ao mar através de sinais sonoros. Dentro de água, bóias conectadas ajudam a indicar a direção e a distância da praia, e até permitem pedir ajuda em caso de necessidade. Uma inovação que, até agora, eu desconhecia.
Outro ponto que faz toda a diferença: as equipas que prestam apoio. Não são apenas os nadadores-salvadores. Existe uma equipa dedicada e formada especialmente para ajudar quem tem necessidades específicas. E além de profissionais, são pessoas de grande simpatia, sempre.
Com estas condições até consigo ir à praia sozinha.
E há um detalhe que em Espanha me salta sempre à vista: vejo muitos idosos a usar estas zonas acessíveis. Pessoas que, de outra forma, talvez não fossem à praia, mas que ali encontram segurança e confiança. Também vejo sempre muitas pessoas com deficiência a aproveitar a praia, algo que, em Portugal, não vejo com a mesma frequência.
E isto leva-me a uma questão:
Há resposta porque há pessoas?
Ou há pessoas porque existe resposta?
Em Espanha, parece-me claro que quando há soluções e apoio, as pessoas sentem-se confiantes e vão.
Portugal: boas experiências, mas menos inovação
Em Portugal, felizmente também já encontrei boas experiências. No Algarve tive várias positivas (com exceção de uma má em Tavira). E desde o ano passado tenho aproveitado bastante as praias de Tróia e Sol Tróia, onde há condições e apoio de qualidade.
Sei que em Setúbal, onde vivo, praias como a Figueirinha e Albarquel estão muito bem preparadas. A única razão pela qual não as frequento é a temperatura da água, porque, como já referi, esse é um fator decisivo para mim.
Mas, se comparar com Espanha, em Portugal o que encontro na maioria dos casos é apenas uma cadeira anfíbia e apoio por parte dos nadadores-salvadores.
O que falta?
A acessibilidade é o que faz com que:
uma pessoa idosa se sinta segura para entrar na água;
uma pessoa com deficiência visual consiga nadar de forma autónoma;
uma pessoa com mobilidade condicionada possa desfrutar da praia.
Portugal tem tudo para evoluir: praias incríveis, uma consciência cada vez maior sobre inclusão, e muitas pessoas que já valorizam o tema. Mas falta ir além da cadeira anfíbia, é preciso melhorar, inovar e diversificar a ajuda.
Conclusão
Se hoje posso escolher entre ir à praia em Portugal ou em Espanha, é porque houve evolução. Mas é preciso continuar a inovar e a melhorar.
A acessibilidade é uma oportunidade para transformar praias em destinos de referência, competitivos e inclusivos. Quando isso acontece, todos ganham: as pessoas, a comunidade, o turismo e o país.
E se em Espanha, quando há soluções e apoio, as pessoas sentem-se confiantes e vão, tenho a certeza de que em Portugal aconteceria o mesmo.