E chegámos ao último destino da Volta ao Mundo, a Califórnia, nos Estados Unidos da América. Los Angeles, Monterey e São Francisco foram as cidades por onde passámos.
Antes de partirmos para os EUA, acabámos por rever os planos da viagem. Com muita pena, decidimos deixar de fora a visita ao Parque Natural de Yosemite. Seria necessário ajustar para evitar os dias de maior confusão ao fim de semana e isso iria condicionar todo o itinerário e roubar tempo em São Francisco. Fica para uma próxima… está nos nossos planos voltar um dia, talvez num itinerário dedicado apenas aos parques naturais.
A nossa viagem começou em Los Angeles, onde aterrámos e levantámos o carro, que já estava alugado e nos acompanharia até São Francisco.


Los Angeles é uma cidade bastante extensa e tudo fica distante, por isso, alugar um carro revelou-se a forma mais prática — e também a mais económica — de nos deslocarmos.
No próprio aeroporto, foi simples: bastou apanhar o autocarro da empresa de rent-a-car (todas as companhias têm), que nos levou diretamente ao ponto de recolha dos veículos. Todos os autocarros que vi eram acessíveis, pelo menos não encontrei nenhum que não fosse.
Los Angeles
É uma grande metrópole com zonas muito diferentes umas das outras.
Ficámos em Santa Mónica e gostei do ambiente descontraído e calmo que aí se vive. O nosso alojamento ficava mesmo perto do emblemático Pier de Santa Mónica, por isso acabámos por passar por lá várias vezes. Afinal já o conhecia bem de tantos filmes que já vi!




Aliás, a sensação é que parece que já lá estivemos e que conhecemos aqueles sítios desde sempre. É mesmo giro!
Também adoro quando acontece o contrário, quando estou a ver filmes que se passam em lugares onde já estive.
Visitámos o bairro de Venice, os seus canais e a famosa praia. Passámos por Beverly Hills, onde a realidade é outra: luxo e glamour. Fizemos a paragem obrigatória em Hollywood, mas confesso que não nos demorámos muito – pessoalmente, não achei que valesse tanto a pena. E fomos até ao centro de Los Angeles onde nos deparámos com um cenário ainda mais desumano do que o que já vínhamos acompanhando ao longo da viagem: o número impressionante de pessoas em situação de sem-abrigo.
Infelizmente, esta realidade cruzou-se connosco em quase todos os países. Começou na Austrália, continuou na Nova Zelândia e ao chegar aos Estados Unidos encontrámos um cenário que superou tudo aquilo que já tínhamos visto. Pessoas com a “casa” literalmente às costas, em mochilas, em carrinhos de supermercado ou em cadeiras de rodas, aí levam todos os seus pertences. Dormem no chão, ao relento ou em tendas, nos passeios, debaixo de pontes ou em jardins. Uma que fosse já era muito, mas são muitas… demasiadas.
Gostei de Santa Mónica, mas sinceramente, não adorei Los Angeles.



Road trip até São Francisco
De Los Angeles seguimos de carro em direção a São Francisco, com paragem em Monterey.
Monterey é uma cidade costeira de pescadores com muita vida marinha.
Visitámos o famoso pier, um local emblemático da cidade e foi aí perto que pudemos observar os leões marinhos, uma das razões que nos levou a escolher esta paragem.
Outra foi porque não queríamos fazer tudo de seguida e, também, porque queríamos fazer a emblemática 17-Mile Drive até Carmel-by-the-Sea. Há quem diga que é a estrada mais bonita da Califórnia. E é, realmente, bonita!
A 17-Mile Drive vai serpenteando a costa e oferecendo vistas deslumbrantes para o oceano, para florestas de ciprestes, moldados pelo vento e para praias desertas (pelo menos nesta altura do ano). Para a fazer é preciso entrar no condomínio fechado de Pebble Beach e pagar uma taxa de acesso.





Carmel-by-the-Sea é uma vila pitoresca com casas de pedra e de madeira, que a tornam diferente de tudo o resto e muito charmosa. É muito conhecida pelos artistas que aí viviam. No entanto, os passeios são estreitos, o que dificulta um pouco a circulação em cadeira de rodas, e ainda por cima repletos de turistas.
Seguimos caminho para o último destino da Volta ao Mundo: São Francisco.
São Francisco
Há muito tempo que queria conhecer esta cidade.
A cidade não desiludiu: gostei imenso da sua atmosfera única, embora, como em Los Angeles, a realidade dura dos sem-abrigo estivesse muito presente e não passasse despercebida.
A Chinatown de São Francisco foi uma das minhas preferidas entre todas as que já visitei. Gostei da organização, da autenticidade e do facto de não ter as grandes confusões e misturas que costumo encontrar noutras cidades. Talvez por ser uma das mais antigas e maiores dos Estados Unidos.



Visitámos o famoso Pier 39, que estava com um ambiente muito animado. O que mais nos fascinou foram os leões‑marinhos. Pensávamos encontrá-los em Monterey, mas foi aqui que os vimos em maior número. Em 2024, o Pier 39 registou um número recorde de mais de 2 000 animais, e tivemos a sorte de os observar de perto. Eram mesmo muitos — incrível!
Também tínhamos pensado visitar Alcatraz, mas infelizmente ficámos sem tempo; apenas a vimos à distância.
Pela cidade, encantei-me com os prédios ao estilo vitoriano e o contraste com os edifícios modernos. Até gostei das suas ruas inclinadas e difíceis de subir para qualquer pessoa e ainda mais para quem está em cadeira de rodas. Mas subi! Com ajuda, claro!
Uma das experiências que não podia faltar foi andar de elétrico, símbolo da cidade. Nem todos são acessíveis, mas é possível. Existe uma solução prática: uma rampa em cimento ao nível dos degraus do elétrico, complementada por um estrado amovível que ultrapassa a distância. Não está disponível em todas as paragens nem em todos os elétricos, mas dá para gerir e escolher onde entrar e sair.
A atmosfera, a multiculturalidade e a diversidade sentem-se em cada esquina. Gostei muito!



Acessibilidades
Os Estados Unidos são, no geral, um destino com boas acessibilidades. Não significa que tudo estivesse acessível, porque isso não existe em lado nenhum do mundo, mas a maioria dos espaços, transportes e serviços estão preparados para receber pessoas com mobilidade condicionada.
O que senti foi exatamente isso: de forma global, consegui fazer praticamente tudo sozinha e manter a minha independência. Claro que houve alguns desafios.
E esse é, no fundo, o objetivo de viajar com acessibilidade: conseguir explorar o mundo de forma autónoma e com liberdade.

Alojamentos
Os hotéis já iam reservados antecipadamente e não tive grandes surpresas. As adaptações estavam bem feitas, embora não fossem iguais em todos, tal como me aconteceu também na Austrália e na Nova Zelândia. Ainda assim, funcionaram e permitiram-me estar confortável e independente.
Estes foram os hotéis onde ficámos:
- Em Santa Mónica ficámos no Bayside Hotel. Um hotel simpático, com estacionamento privado (que não tivemos de pagar por termos dístico de deficiente). Apesar de bem conservado, nota-se que é um hotel antigo: o lavatório ficava no quarto e não dentro da casa de banho, o que não era muito prático. Em termos de acessibilidade, tinha cadeira de banho e barras de apoio, o que facilitou bastante, mas a cama era muito alta.
- Em Monterey ficámos no Ramada by Wyndham Monterey. O estacionamento era mesmo à porta do quarto, o que facilitou imenso. Em termos de acessibilidade, estava perfeito: muito espaço, banco de banho fixo e prático, além de barras de apoio bem colocadas. Recomendo.
- Em São Francisco ficámos no CitizenM San Francisco Union Square. O hotel estava muito bem localizado, o que foi ótimo, já que aqui já não tínhamos carro. O quarto estava cheio de pormenores interessantes, como estores e luzes comandados por um tablet, o que ajuda bastante em termos de acessibilidade. Gostei também de detalhes como o óculo da porta à altura de quem está em cadeira de rodas, assim como os cabides e o ponto para pendurar o casaco. A casa de banho tinha barras de apoio e banheira com tábua adaptada.





E assim chegámos ao fim desta grande aventura: uma Volta ao Mundo em quarenta dias!
E que volta! Não foi tudo perfeito, afinal nada é, mas foi uma experiência inesquecível, que correu melhor do que poderia imaginar.
Escrevo este último artigo, sobre a minha Volta ao Mundo, mais de um ano depois. Logo após regressar, confesso que não pensava em fazer algo semelhante. Mas hoje, a verdade é que já sinto de novo o entusiasmo de preparar outra grande aventura.
JustGo!!
Mais detalhes da Volta ao Mundo no artigo: Volta ao mundo em 40 dias.
Ano da viagem: 2024
