Chegámos a Vila de Frades em cima da hora, mas percebemos logo que aqui o tempo vai devagarinho.
O ponto de encontro era às 10h da manhã, na Adega Gerações da Talha. O programa estava marcado há algum tempo e até parece que adivinhámos: foi o primeiro fim de semana do ano com um sol fantástico e temperaturas quase de primavera.
Depois de semanas de chuva intensa e céu cinzento, nada como aproveitar para visitar o nosso Alentejo e respirar as tradições mais antigas.
A agenda prometia. E cumpriu.



À porta da Adega, começou a formar-se o grupo. Éramos seis, depois nove. O número certo para criar laços.
Ainda na rua, colocaram-nos ao pescoço um “copo de três”, pendurado num suporte de cabedal. E assim começou a prova do protagonista do dia: o Vinho da Talha, acompanhado por petiscos da região.
O copo de três servia vinho que era bebido normalmente no intervalo das refeições, sem acompanhamento ou acompanhando alguns petiscos ou tapas.
Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Ao entrar na adega, a primeira sensação foi o cheiro a vinho e a barro húmido tão característico. Soube bem, mesmo aquela hora da manhã. Começámos então a perceber o que é o vinho da talha, a sua história e todo o processo de produção.
Fomos recebidos com a simpatia da alentejana Rita Avelar, que nos acompanhou durante toda a manhã. Já referi, noutros artigos sobre programas de enoturismo que costumo fazer, a entrega das pessoas que nos recebem e, mais uma vez, aconteceu. Uma dedicação total, calorosa e com uma alegria contagiante.


Depois da explicação sobre o processo, juntou-se a nós Teresa Caeiro, responsável pelo projeto Gerações da Talha, com uma história verdadeiramente encantadora. Assim que começa a falar percebe-se a paixão por aquilo que é mais do que um negócio, é família!
A Teresa cresceu no meio do vinho da talha. E foi na Universidade que começou a desenhar o que é hoje este projeto. Pensou em todos os detalhes, desde as visitas até ao logótipo (muito giro, por sinal). Aos poucos, foi dando forma a uma tradição que podia ter ficado parada.
É impossível não nos deixarmos envolver pela sua história.
Confesso que, apesar de ter gostado do vinho, não me alarguei muito com medo do que ainda aí vinha! Começámos com o Farrapo Branco e o Atão, vás tinto?. Este último, além do nome tão engraçado e original, tem a curiosidade de ser um vinho tinto feito a partir de uvas brancas.
Saímos da adega em direção ao Centro Interpretativo do Vinho da Talha, um espaço moderno e simples, onde consolidámos o conhecimento que já nos tinha sido transmitido.





Daqui seguimos para a Taberna do Enteiriço, onde tínhamos jantado na noite anterior. Muito bem, por sinal. A taberna é do marido da Teresa, João Enteiriço, e digo-vos que vale muito a pena provar a ementa cheia de petiscos tradicionais alentejanos.
O único senão é que, para entrar, foi preciso ajuda porque existem dois degraus à entrada.
Mais dois copos de vinho, desta vez o Natalha, tinto e branco e umas empadas de espinafres acabadas de fazer, deliciosas! Aqui juntou-se a nós um grupo de Cante Alentejano, que nos acompanhou ao longo da manhã. Não preciso dizer que, no final, já todos cantávamos.
É engraçado, como a música nos aproxima. A partir deste momento, parecia que já nos conhecíamos todos desde sempre.
Fomos andando pelas ruas de Vila de Frades e parando nas adegas. Primeiro na Adega do Justino e depois na Adega Horta Abaixo, de José Caeiro, irmão da Teresa. Sempre seguidos pelo grupo, num tom de boa disposição e alegria.






Voltámos ao ponto de partida, à Adega Gerações da Talha, para nos deliciarmos com um magnífico cozido de grão.
Vinho da Talha
Vila de Frades é uma pequena aldeia alentejana, situada no concelho da Vidigueira, conhecida como a “capital” do Vinho da Talha.
Nas proximidades encontram-se as ruínas da Vila Romana de São Cucufate, onde foram descobertas provas arqueológicas de que este método de produção foi trazido pelos romanos.
O Vinho da Talha é um vinho tradicional alentejano produzido através de um método ancestral, onde as uvas fermentam em grandes talhas de barro.
Depois da vindima, as uvas são colocadas dentro das talhas e a fermentação começa naturalmente no seu interior. As películas, grainhas e engaços sobem à superfície, formando uma camada sólida. Faz-se então a remontagem, que consiste em empurrar manualmente essa massa para baixo, potenciando a cor, o aroma e a estrutura do vinho.
Concluída a fermentação, o vinho permanece em contacto com as massas até ao São Martinho. Nessa altura, é retirado pela “bica” da talha, sendo naturalmente filtrado por uma camada de engaços que funciona como filtro natural.
Vinhos Gerações da Talha: Natalha (Tinto, Branco e Palhete), Farrapo (Tinto e Branco) e Atão, Vaz Tinto?



Adega Gerações da Talha
A Adega Gerações da Talha existe desde meados do século XVIII. O conhecimento tem sido passado de geração em geração e assim se tem mantido, mesmo quando uma mulher decide enfrentar uma tradição que, até agora, estava nas mãos dos homens da família.
São vários os programas por onde escolher.
O que fiz e descrevi acima foi o programa Por Vila de Frades – A Rota das Adegas, que consiste em:
- Percurso a pé pelas adegas tradicionais de Vila de Frades, acompanhado por guia local
- Visita a vários produtores e adegas tradicionais de Vinho da Talha
- Prova de vinho novo em várias adegas, acompanhado por petiscos tradicionais alentejanos
- Visita ao Centro Interpretativo do Vinho da Talha
- Cante Alentejano
- Almoço tradicional em grupo
Este programa começa no São Martinho, quando se abrem as primeiras talhas e se prova o vinho novo. Não acontece durante todo o ano, porque a produção é pequena e o vinho é limitado.




Acessibilidades
Estamos a falar de adegas antigas, no Alentejo profundo, por isso não vamos achar que é tudo acessível. Pelo menos eu já ia preparada para precisar de ajuda para ultrapassar alguns degraus.
Este programa não passa sempre pelas mesmas adegas e, por coincidência, as que visitámos não tinham degraus. O único local com degraus foi a Taberna do Enteiriço.
Como levei a minha Triride, foi pacífico andar pelas ruas empedradas e inclinadas de Vila de Frades.
Há casa de banho acessível no Centro Interpretativo. A da Adega Gerações da Talha tem rampa de acesso, é espaçosa e tem porta de correr (o que facilita bastante), mas ainda não tem barra de apoio na sanita. Ficou a promessa de colocarem e houve genuíno interesse em perceber como tornar tudo mais acessível.

E no final?
Só falta falar da Cuca, a cadela mais gira e brincalhona, impossível de ignorar. Ela faz mesmo parte do programa.
Foi um dia bom. Um dia simples, mas que tinha tudo:
O vinho.
A mesa.
O cante.
As pessoas.
E tempo.
E se algum dia forem a Vila de Frades, levem tempo para sentir tudo isto. Porque não é só vinho, nem só tradição. É o Alentejo.
As fotos fantásticas deste artigo são do meu amigo fotógrafo Rui Minderico, cujo trabalho podem consultar no seu site.
JustGo!!
Ano da viagem: 2026
Gerações da Talha – Site
Rua de Lisboa, 29A, Vila de Frades
Taberna do Enteiriço – Site
Rua do Espírito Santo nº16, Vila De Frades
